“Eu sei que não deveria, mas não posso evitar” ou “ter este objeto perto de mim enquanto estou dormindo é um conforto” são frases típicas de quem sofre de algum tipo de dependência. Neste caso, o vício é em redes sociais. As duas declarações foram ouvidas pela professora de psicologia da Universidade de San Diego, nos Estados Unidos, Jean Twenge, autora do livro “The Narcissism Epidemic”, ou “A Epidemia do Narcisismo”, em tradução livre (Free Press, 2010).

Em um artigo de opinião publicado na revista The Atlantic, Twenge afirmou que o uso exagerado de internet e redes sociais pode ter relação direta com o aumento exponencial de ansiedade e depressão – de acordo com a ONU, elas incidem em 3,6% e 4,4% da população mundial, respectivamente. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ligada à ONU, a depressão é vista como “mal do século”.

A conclusão de Twenge encontra eco na mais recente pesquisa sobre o tema publicada pela Royal Society for Public Health, uma organização sem fins lucrativos inglesa que se dedica ao estudo de melhorias na saúde pública há mais de 140 anos. O estudo ouviu 1.500 jovens britânicos com idades entre 14 anos e 24 anos e reportou dados importantes sobre impacto das redes sociais em suas vidas. De forma geral, a maioria desses jovens acredita que o uso de Facebook, Instagram e outras redes faz mal a seu bem-estar, embora também contribua positivamente em suas vidas.

De acordo com o documento, o vício em mídias sociais afeta 5% dos jovens britânicos, e o poder de dependência desse canal de comunicação é superior ao do cigarro e do álcool. Um outro estudo conduzido por neurocientistas da University of Southern California e da Beijing Normal University, entre outras, e publicado em edição de 2014 da “Psychological Reports”, concluiu que o Facebook aciona a mesma parte do cérebro que o jogo e o abuso de substâncias.

Largar o prazer efêmero dos “likes” e das interações é difícil mesmo nos casos em que os jovens se sentem mal. Uma enquete online conduzida pelo Moment, um aplicativo de monitoramento consentido para smartphones, perguntou a 1 milhão de usuários do Instagram se eles estavam felizes com o tempo gasto nas plataformas online: 63% daqueles que passam mais de uma hora por dia no aplicativo relataram infelicidade. Já o FaceTime, da Apple, aplicativo que, como o Skype, da Microsoft e o Hangouts, do Google, tem a função de realizar chamadas e promover uma interação mais longa e pessoal, teve o melhor desempenho: 91% de felicidade entre seus usuários.

Para a pesquisa, o Instagram é o maior vilão da saúde mental dos jovens: ele está relacionado a problemas de sono, FoMO (“Fear of Missing Out”, expressão equivalente a “medo de estar por fora”), bullying, ansiedade, depressão, solidão e imagem corporal. “Aquilo que vejo no outro, é o que eu quero ser. No Instagram, muitas imagens são produzidas e tratadas, mas quando as observamos, não notamos isso instintivamente e o que fica é uma imagem de perfeição, impossível de atingir”, explica Luciana Ruffo, do Núcleo em Pesquisa em Psicologia e Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (NPPI-PUC/SP), e especialista em tecnologia. “Mas aquilo não é real”, afirma.
Segundo a pesquisa da Royal Society for Public Health, o problema é mais evidente entre as meninas: nove entre dez afirmam insatisfação com o corpo. Em comparação com os garotos, o efeito negativo impressiona. Mais: entre os rapazes, 27% já se sentiram excluídos na internet, contra 48% das meninas. No quesito depressão e ansiedade, a diferença é ainda maior: entre 2012 e 2015, os sintomas cresceram 21% entre eles e 50% entre elas.

Redes sociais: causa ou consequência de doenças psicológicas?

“Que prática estranha é essa que um homem deve sentar-se à mesa do café da manhã e, em vez de conversar com a esposa e os filhos, segura diante de seu rosto uma espécie de tela na qual está inscrita uma rede mundial de fofoca”. A frase é do sociólogo norte-americano Charles Cooley e proferida em 1909 – ou mais de um século atrás. O objeto em questão não era um smartphone nem um iPad, mas o jornal, identificado à época por Cooley como responsável pelo fim da conversa.

Toda nova tecnologia, sobretudo aquelas ligadas à informação e à comunicação, é recebida com um misto de euforia e desconfiança. Jornal, rádio e televisão passaram por questionamentos semelhantes. Uns diziam que eles provocariam o fim da leitura, outros que seriam objetos de idiotização em massa. Até hoje, há um debate acalorado, com argumentos a favor e contra essas teses. O uso intensivo das redes sociais passa pelo mesmo processo. Mas há um agravante, que faz do fenômeno algo mais preocupante.

Hoje, os distúrbios psíquicos afetam o bem-estar em escala jamais registrada na história humana.

Apenas no Reino Unido, três em cada quatro adultos já foram diagnosticados, em algum momento da vida, com algum desses distúrbios. Essas doenças têm custo econômico anual de cerca de US$ 112,5 bilhões, ou 4,5 do PIB do país, considerando o registro de 2016. E, nos Estados Unidos, as taxas de depressão e suicídio entre adolescentes dispararam desde 2007, 30% entre garotos e 100% entre garotas – hoje, há mais casos de suicídio do que homicídio entre jovens de 15 a 19 anos no país.

Em artigo, Jean Twenge informa que adolescentes que passam três horas ou mais por dia usando dispositivos eletrônicos têm 35% mais chances de desenvolver um fator de risco para o suicídio. “Muito desta situação pode ser atribuída a seus smartphones”, afirma. Um dos co-fundadores do Facebook, Sean Parker admitiu que a rede social funciona “explorando uma vulnerabilidade na psicologia humana”.

“É como aquela propaganda da bolacha: vende mais porque é mais fresquinho ou é mais fresquinho porque vende mais? Não dá para dizer se este quadro existe por causa dos smartphones ou se os smartphones existem por conta deste quadro”, diz Luciana Ruffo. “A sociedade está mais fechada, as pressões são grandes, o trabalho exige muito, há mais violência, a vida nas cidades é complicada. A depressão é o mal do século por diversos fatores, e as redes sociais estão entre esses fatores”, afirma.

O que ninguém nega é que a ferramenta mudou de vez o comportamento humano. Principalmente entre os mais jovens.

Segundo Twenge, nos EUA, já há pesquisas que comprovam o “alargamento” da infância. Ou seja, adolescentes apresentam, cada vez mais tardiamente, padrões de comportamento condizente com suas faixas etárias, como dirigir, sair sem a família e namorar. “Jovens de 18 anos agem agora como os de 15 anos e os de 15 anos, como os de 13 anos. A infância agora se estende até o Ensino Médio (High School)”, afirma.

Em entrevista à revista Veja, Susan Greenfield, especialista em fisiologia cerebral da Universidade de Oxford, contou que os adolescentes americanos entre 13 anos e 17 anos gastam, em média, mais de 30 horas semanais na internet. “São quatro ou cinco horas por dia não caminhando na praia, não dando um abraço, não subindo em árvores, enfim, não fazendo todas as coisas que as crianças costumam fazer”, disse.

Greenfield diz, ainda, que em casos extremos, quando pessoas passam até 10 horas diárias em frente a uma tela, há forte incidência de anormalidades cerebrais. “Vemos um crescimento alarmante de TDAH, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. Sabemos que a prescrição de drogas como ritalina, usadas para TDAH, triplicaram [nos Estados Unidos]”, informa.

fonte: https://bluevisionbraskem.com/desenvolvimento-humano/como-o-uso-de-redes-sociais-impacta-nossa-saude-mental/

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